Mostrando postagens com marcador história e charge. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador história e charge. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de maio de 2012

A função social das charges na Era Vargas

Bruno Pereira Dias

A Era Vargas foi, sem dúvida, um dos períodos que a propaganda teve maior influência sobre as massas, no intuito de transmitir a imagem de um governo que faria o Brasil progredir, deixando para trás os rastros da República Velha, que não seriam retomados, pois eram considerados desgastados, ultrapassados. Vargas criou sua imagem de “pai dos pobres”, “salvador da pátria”, e com isso, conseguiu grande apoio da população. Porém havia muita contradição, pois o presidente tinha apoio do exército e das oligarquias, sendo que essas últimas também apoiavam a República Velha, a qual Vargas prometeu esquecer completamente e conduzir um novo tipo de governo.

Havia muita censura e repressão, ocasionando uma ausência na liberdade de imprensa, fazendo com que as classes sociais não obtivessem meios de expor seus pensamentos a respeito do governo de forma direta. O que as pessoas falavam no dia-a-dia não podia ser exposto em sua totalidade nos meios de comunicação, e dessa forma Vargas se mantinha muito solidamente no poder, com apoio das poderosas correntes já citadas [exército e oligarquias] e tendo como principal oposição os comunistas, os quais o governo fazia propaganda negativa classificando-os como “terroristas”, “malvados” etc.

É nesse contexto que entram as charges [tiras humorísticas publicadas em revistas e jornais] com um tom extremamente sarcástico: era o único modo das pessoas atacarem ao governo e falarem coisas do cotidiano sem serem perseguidas, através de sátiras, piadas e zombarias. Elas começaram a ser utilizadas, pois seus desenhos são um atrativo para leitores, prendendo a atenção e sendo mais aceitas até pelos que não tem o hábito de leitura constante. Era uma maneira de criticar as coisas do cotidiano e da vida política driblando a forte censura da época.

A charge é uma riquíssima fonte histórica, pois apresenta em um pequeno número de quadrinhos, uma quantidade relevante de aspectos do dia-a-dia, como o pensamento das classes baixas (as que mais se identificam com ela), pensamentos políticos, críticas urbanas, mudanças, velocidade, interação, enfim, uma abrangente carga de traços da vida na época.

Portanto, quando surge a pergunta em mente: “As charges eram puramente humorísticas?”, devemos ter a resposta pronta a ser dita – Não! O humor é a principal característica das tiras, mas o que mais se nota são críticas sociais, com o intuito de entreter a população, e ao mesmo tempo, informá-la a respeito do que se passa no país, de como pensar e não ser facilmente enganada pelas propagandas do governo, e principalmente, como resistir a tais imposições. No melhor estilo brasileiro de se fazer as coisas: resistência através do bom humor e da brincadeira [as charges tiveram origem na França].

É uma forma de incitar a população a ter pensamento crítico, ao saber das intenções do governo e de suas atitudes, e também do êxito ou fracasso das medidas tomadas por Vargas. Podemos notar aspectos como as lutas políticas, a referência aos comunistas, a boa capacidade de fazer alianças de Vargas [satirizada como manipulação], as correntes que apóiam o governo [simbolizadas como verdadeiras correntes metálicas, ou seja, elos de metal unidos], a República Velha [simbolizada como uma mulher velha, gorda e cansada deitada em uma cama], a Revolução de 1930 [na forma de uma mulher alta, bonita e com belo corpo, a qual nem mesmo Vargas conseguiu satisfazer após conquistá-la], entre outros.

Dessa maneira, podemos concluir que as charges são a arma mais poderosa das oposições, pois são facilmente absorvidas pela população. Não é preciso ser um intelectual sobre política para entendê-las – basta estar atualizado sobre o que ocorre no seu país e na sua sociedade. Pode atrair tanto adultos quanto crianças, pois as caricaturas são engraçadas e fanfarronas. Não é de se estranhar que o Brasil é o país onde elas mais alcançaram o sucesso, afinal no país do carnaval e do futebol, o bom humor é sempre bem vindo, por qualquer parte da população – exceto pelas classes que são o alvo das satirizações.


* Artigo produzido para a disciplina de Estágio Supervisionado sob a orientação da professora Ana Eugênia Nunes de Andrade.

A vinda da família real em quadrinhos

André Carvalho de Vilhena

Este trabalho se propõe defender o uso e a importância das histórias em quadrinhos dentro da sala de aula e no ensino de história. A temática de contextualização histórica do trabalho é A vinda da família real para o Brasil e a problemática desenvolvida vem a ser como o processo expansionista militar de Napoleão Bonaparte atuou na vinda da Corte Portuguesa de Dom João VI para terra brasileira?

Cada vez mais devido à globalização da informação e os veículos midiáticos como formadores de opinião e fonte intelectual, tem-se cabido ao professor a necessidade constante da busca e expansão por novas metodologias e ferramentas de trabalho. Atualmente com a amplitude de métodos de trabalho principalmente no ensino de história buscou-se perceber que a tarefa educacional não consiste apenas na transmissão e reprodução do conteúdo exigido pelos livros didáticos.

Preocupados com novas abordagens percebeu-se que era possível a educação através de novas fontes ligadas a produção social como histórias em quadrinhos, filmes, literaturas de cordéis, charges entre outras. Este estudo observará e analisará qual a melhor forma de trabalhar as histórias em quadrinhos em sala de aula desenvolvendo a capacidade no aluno de perceber os diálogos construídos relacionando-os às imagens visando também os benefícios didáticos proporcionados por essa ferramenta de ensino como o auxílio no desenvolvimento do hábito de leitura já que hoje é percebido o crescente desinteresse por essa prática, essencial para o ensino global.

A história em quadrinhos a ser trabalhada tem o título de: “Um país independente” e tem como pesquisador histórico Edson Rossatto e roteirista Jota Silvestre.

A história descreve a ida de três jovens [importante destacar as múltiplas características desses jovens, onde há uma nipo-brasileira um afro-brasileiro e um portador de necessidades especiais o que leva o aluno a reconhecer a multiplicidade étnica brasileira como também a conviver com as diferenças tanto raciais quanto físicas] ao Museu do Ipiranga em São Paulo, percebe-se a importância dada ao patrimônio nacional há uma reafirmação da história presente na sociedade. Os três protagonistas entediados no museu encontram um professor de história que lhes conta a história da vinda da família real para o Brasil, trabalhando o antecedente histórico que propulsou tal fato, o bloqueio continental. Construiu-se no enredo da história não um simples narrar de fatos, mas sim um jogo dialético de questionamentos desenvolvidos pelos próprios jovens através do raciocínio crítico, isso demonstra ao aluno a capacidade de absorção de conhecimento através do próprio questionamento e da própria dúvida.

A riqueza das histórias em quadrinhos e em especial desta, que trabalha de forma exímia a força crítica do diálogo juntamente com as imagens, aderindo a esta história o uso do mapa para demonstrar os países anexados ao Império Napoleônico como também o desenho caricaturístico dos principais personagens históricos como Napoleão Bonaparte, Dona Maria “a louca” e Dom João VI. Valdomiro Vergueiro com seu artigo sobre O uso das histórias em quadrinhos no ensino entende que a interligação do texto com a imagem, existente nas histórias em quadrinhos, amplia a compreensão de conceitos de uma forma que qualquer um dos códigos isoladamente teria dificuldades para atingir. Na medida em que essa interligação texto/imagem ocorre nos quadrinhos com uma dinâmica própria e complementar, representa muito mais do que um simples acréscimo de uma linguagem a outra, mais a criação de um novo nível de comunicação, que amplia a possibilidade de compreensão do conteúdo programático por parte dos alunos.

O professor de história, um personagem da trama e narrador do fato histórico, toca diretamente o psicológico do leitor de forma muito sutil, trabalhando a emoção e a curiosidade, força motivacional essencial para o interesse à aprendizagem. Trabalha ainda conceitos de cidadania como a gentileza, calma e sagacidade habilidades indispensáveis no mundo contemporâneo e raramente percebidas em nosso cotidiano e convívio atual. Este se mostra compreensivo à frustração dos jovens em não se interessaram pela história e se propõe a explicar o conteúdo aos mesmos sob um novo olhar com diferentes abordagens. Proporciona ainda em sua discrição aspectos sócio-econômicos com a intenção britânica em colaborar com a vinda da família real para o Brasil a fim de conquistar mercado consumidor no mundo e também aspectos culturais da corte como o transporte de pratarias, jóias e como descreve no enredo (...) “Dom João mandou embarcar o acervo da real biblioteca com raridades como a primeira edição de Os Lusíadas e também um prelo e tipos para prensa.” São abordados ainda aspectos curiosos cotidianos como a influência da família real nos costumes brasileiros quando Carlota Joaquina chega ao Brasil com um turbante na cabeça devido à proliferação de piolhos nos navios reais e logo o povo adere ao ornamento entendendo-o como moda européia.

A obra em estudo então mostra que os quadrinhos podem ser escritos com uma linguagem de fácil entendimento e também devem ao mesmo tempo introduzir novos conceitos e vocabulários de forma que o conhecimento ampliar-se-á quase que despercebidamente pelos alunos. Tais fatores observados constatam que de forma invariável os quadrinhos contribuem para o auxílio no desenvolvimento do hábito da leitura.  Assim, a ampliação da familiaridade com a leitura de história em quadrinhos, proporcionada por sua aplicação em sala de aula, possibilita que muitos estudantes se abram para os benefícios da leitura, encontrando menor dificuldade para concentrar-se nas leituras com finalidade de estudo.

O enredo analisado da história em quadrinhos traz ainda as dificuldades enfrentadas pelos viajantes dos navios portugueses, onde encontravam a falta de espaço e de suprimentos como a água, o que mostra ao aluno que as condições eram precárias mesmo para a corte portuguesa. Trabalha-se ainda abordando esta transição de Lisboa ao Rio de Janeiro, o conceito de tempo e suas dimensões: sucessão, duração e simultaneidade. Para utilização do conceito temporal usam-se principalmente os recordatários. Onde se lê ”Mais tarde...” ou “Logo depois...” pode ser um exemplo de sucessão e, de outro lado aquele que se lê “Enquanto isso...” pode facilitar o aluno a percepção de simultaneidade. Os elementos visuais utilizados para indicar uma passagem de tempo na história em quadrinhos podem ser usados para uma reflexão sobre os diferentes tempos: o tempo da natureza, o tempo do relógio ou o tempo biológico como lembra Túlio Vilela em seu artigo Os quadrinhos na aula de história.

Este artigo busca incitar o professor ao uso de novas ferramentas metodológicas, em especial as histórias em quadrinhos, percebendo sempre o caráter globalizador que proporciona condição de compreensão a qualquer estudante, sem necessidade de um conhecimento anterior ou específico ou familiaridade com o tema, seja ele ligado a antecedentes culturais, étnicos, lingüísticos ou sociais. As histórias em quadrinhos possibilitam ainda, com seu uso, a integração entre as diferentes áreas do conhecimento, possibilitando na escola um trabalho interdisciplinar e acima de tudo proporcionando de forma direta um bem maior ao estudante que a o desenvolvimento das diferentes áreas interpretativas como a visual e a verbal. 
    
Fonte:
História em quadrinhos - Independência do Brasil. Pesquisa histórica e argumento – Edson Rossatto. Roteiro - Jota Silvestre. Desenho – Laudo (com colaboração de Will). Apresentação – Roberto Araújo. Edição – Manuel de Souza.

Referências bibliográficas:
Barbosa, Alexandre. Como usar a história em quadrinhos em sala de aula/ Alexandre Barbosa, Paulo Ramos, Túlio Vilela, Ângela Rama, Waldomiro Vergueiro, (orgs). 2. Ed. – São Paulo : Contexto, 2005. – (Coleção como usar na sala de aula).


* Artigo produzido para a disciplina de Estágio Supervisionado sob a orientação da professora Ana Eugênia Nunes de Andrade