Álvaro Nonato Franco Ribeiro
As discussões entorno do ensino de História tem se tornado uma constante em nosso país nos últimos trinta anos, acompanhando processos de transformação na própria historiografia. Todas elas convergem para um mesmo ponto: ensinar História hoje, é muito mais que passar aos nossos alunos uma série de fatos e datas, a fim de que eles realizem a memorização dos mesmos. Cabe ao professor criar situações de ensino e aprendizagem em que uma História mais reflexiva seja praticada. Uma História que traga junto a si, o objetivo de desenvolver a consciência crítica de nossos alunos, e que não reproduza apenas os fatos já cristalizados na memória social.
Dessa forma, este artigo científico visa propor uma nova metodologia a ser empregada em uma aula para alunos do ano do Ensino Fundamental, que trate da temática da Reforma Urbana e Sanitária do Rio de Janeiro operada no início do século XX, no governo do presidente Rodrigues Alves. Trazemos como fontes históricas a serem utilizadas nessa aula músicas compostas nesse momento, que retratem o clima de insatisfação e deboche com relação a esse movimento.
O final do século XIX e início do século XX marca uma época de transformações em todo mundo. A tecnologia se mostrava cada vez mais presente na vida dos seres humanos que passavam a desfrutar dos prazeres emanados da luz elétrica e os meios de transporte cada vez mais rápidos e eficientes. Entravamos no que o historiador inglês Eric J. Hobsbawm chamou de “Tempo das Certezas”, período que vai aproximadamente dos anos de 1890 a 1914.
Com o Brasil não poderia ser diferente. Saímos de um regime monárquico e entravamos no regime republicano. Com a República, vinham uma série de promessas que o Brasil enfim seria colocado nos trilhos do desenvolvimento. O novo século trazia consigo, os anseios de parte da população brasileira, formada pela nossa elite, que enfim veria o país se assemelhar às nações européias:
O Brasil entrava no novo século XX tão confiante como as demais nações: nada como imaginar que seria possível domesticar o futuro, prever e impedir flutuações. Sem duvida esse é um tempo que se apostou em verdades absolutas, em normas morais rígidas, na resolução de todos os imponderáveis, e fiou-se em modelos que distinguiam, de forma insofismável, o certo e o errado.
O outro lado dessa população, porém, via esse progresso com desconfiança. O que não nos surpreende, uma vez que eram eles os que sofriam com o lado negativo dessas novas tecnologias. Os carros tomavam as ruas, conduzidos por motoristas inexperientes, que provocam graves acidentes em uma população que a eles não estava adaptada. Os fios de energia elétrica que cortavam a cidade provocavam choques, na maioria das vezes, fatais em quem neles, movidos pela curiosidade, se aventurava a tocar. Eram novos tempos que traziam a esperança no progresso, mas também o medo e incertezas para aqueles que sofriam com o avanço desse desenvolvimento.
A capital do país nessa época era a cidade do Rio de Janeiro, e ela não se enquadrava a esses novos anseios, e isso já era do conhecimento do governo do país, que vinha realizando debates sobre esta temática desde a primeira metade do século XIX. O Rio de Janeiro era um caso grave de Higiene Pública, em todos os seus aspectos, seja no campo da moradia, da saúde, e sanitarismo:
(...) Entre os fatores morbígenos sobressaíam as habitações, especialmente as coletivas, onde se aglomeravam os pobres. Os médicos incriminavam tanto os seus hábitos (...), como a ganância de seus proprietários, que especulavam como a vida humana em habitações pequenas, úmidas, sem ar e luz, que funcionavam como fermentadores ou putrefatórios, liberando nuvens de miasmas na cidade. Os higienistas condenavam outros aspectos da vida urbana: corpos eram enterrados em igrejas, animais mortos eram atirados às ruas; por todos os lados havia monturos de lixo e valas a céu aberto; açougues, mercados eram perigosos tanto do ponto de vista da integridade dos alimentos como por serem potenciais corruptores do ar; fábricas, hospitais e prisões igualavam-se na ausência de regras higiênicas e disciplinares; as ruas estreitas e tortuosas dificultavam a renovação do ar e a penetração de luz do sol; as praias eram imundos depósitos de fezes e lixo; quase não havia praças arborizadas no Rio de Janeiro, que era assim como um corpo sem pulmões.
A cidade era vista como um perigo para os viajantes europeus, que ao se dirigirem de navio para a América do Sul, preferiam aportar em Buenos Aires, a fazer uma parada no Rio de Janeiro. As famílias mais pobres da cidade viviam nos chamados cortiços. Estes eram antigos casarões do tempo do Império divididos em uma série de quartos, onde as famílias moravam sem as mínimas condições de higiene necessárias.
Em meio a este pano de fundo, a cidade ainda sofria surtos epidêmicos que no decorrer de todo o ano, como por exemplo, a febre amarela, a peste bubônica e a varíola, tidas como as maiores “ceifadoras” de vida da população carioca, e isso fica claro pela charge que reproduzimos abaixo. Os esqueletos, na cultura popular, simbolizam a morte, e na ilustração suas foices trazem inscritas o nome das maiores causas de mortandades na capital nacional:
Toda esta situação da capital brasileira passou a ser analisada pelos chamados médicos higienistas, uma corrente médica iniciada na Europa no século XIX, que pregava a salubridade como garantia de saúde e bem estar. Os higienistas propunham de ações simples, como lavar as mãos antes das refeições, até outras mais complexas, como por exemplo, a necessidade de largas avenidas que promovessem a circulação do ar, de modo que os miasmas não se mantivessem concentrados no mesmo.
Impulsionados por essas idéias, e percebendo claramente a necessidade de se promover uma Reforma Urbana e Sanitária para assegurar a atração de investimentos para o Brasil, Rodrigues Alves em seus Manifesto a Nação, de 15 de novembro de 1902, declara:
Aos interesses da imigração, dos quais depende em máxima parte nosso desenvolvimento econômico, prende-se a necessidade do saneamento desta capital. È preciso que os poderes da Republica, a quem incumbe tão importante serviço, façam dele a sua mais séria e constante preocupação (...) A capital da Republica não pode continuar a ser apontada como sede de vida difícil, quando tem fartos elementos para constituir o mais notável centro de atração de braços, de atividades e de capitais nesta parte do mundo.
Os planos de mudanças a serem promovidas na cidade do Rio de Janeiro já eram uma realidade. Restava-se agora encontrar os agentes que encabeçaria essas reformas. Para as mudanças na estrutura urbana, foi nomeado como prefeito o engenheiro Pereira Passos, que acompanhara uma reforma semelhante realizada na cidade de Paris, e que ocupara o posto de Engenheiro do Império, atuando na construção de diversos prédios, e participando de uma comissão que propunha promover o melhoramento da cidade do Rio de Janeiro. E ela consistia: no derrubamento de casas para construção de novas avenidas e ampliação das já existentes, e seriam ostentadas com mármore e cristal. Essa política ficou conhecida como “bota - abaixo” e gerou revolta na população carioca, devido à violência empregada.
A população não foi devidamente indenizada pelas casas perdidas, em uma das residências, seu proprietário se recusou a s retirar do local para ser realizado o desabamento. Foi ordenado que o local fosse demolido com ele dentro. Até os costumes da população sofrerão forte repressão, de coisas simples como cuspir e urinar nas ruas; a práticas culturais, como a capoeira e o candomblé, advindas da cultura africana, e consideradas como imorais.
O objetivo maior de Rodrigues Alves e Pereira Passos era assemelhar o centro do Rio de Janeiro com o centro de Paris, mostrando assim aos estrangeiros que o Brasil estava, enfim se assimilando os padrões estéticos europeus.
Mas era necessário ainda resolver o problema mais grave da população, as epidemias que a assolavam. Para tanto foi nomeado o médico sanitarista, de tendência pausteriana, Oswaldo Cruz, que regressara havia pouco de Paris, e dominava os recentes conceitos sobre os microorganismos e a imunização contra eles:
Oswaldo cruz freqüentou o Instituto Pasteur em pleno boom de descobertas de microrganismo patogênico e quando pareciam ilimitadas as perspectivas não apenas das vacinas, para a prevenção de doenças infecciosas, mas também da soroterapia, com fins curativos, com base na tecnologia recém-desenvolvida para o tétano e difteria (...)
As campanhas de Oswaldo Cruz consistiam no combate aos agentes transmissores das doenças: o mosquito, o rato e por fim, o vírus causador da varíola. Para combater o mosquito causador da febre amarela montou-se uma equipe de agentes sanitários, que invadiam as casas de forma brutal para combater os focos de incidência do mosquito.
Para solucionar o problema da peste bubônica tomou-se uma medida que de imediato pareceu eficiente, mas que com o tempo se tornou um meio de vida para muito cariocas:
Para acabar com os ratos do Rio de Janeiro e erradicar a peste bubônica que eles transmitiam (...). Montou-se brigadas mata-ratos. A tarefa de cada voluntário era eliminar cinco roedores por dia. Para cada rato caçado (...) recebia-se 300 réis do governo. (...) Foi uma mina de ouro para os malandros. De olho na recompensa, houve quem se especializasse na criação doméstica de ratos que eram vendidos ou depois abatidos e trocados por dinheiro.
Logo, percebemos que o comércio dos roedores foi descoberto, muitos dos envolvidos foram presos. E a idéia de Oswaldo Cruz não prosseguiu. No combate a varíola adotou-se a vacinação obrigatória em 1904, o que provocara a revolta da população carioca, que já vinha sofrendo com todas as já citadas iniciativas do governo.
Mas, diante de todas essas ações, entendemos o que escreveu o cronista carioca João do Rio, o Rio se civilizava. E não importava para os dirigentes políticos da época, a que custo isso seria feito. Podemos perceber esses aspectos sendo criticados na charge abaixo. O homem representa o Rio de Janeiro passando por um processo de embelezamento, o que não se enquadra nesse movimento é colocado para fora, ou permanece escondido, como é o caso da favela, dentro da boca, que certamente deveria se manter fechada: