quarta-feira, 14 de agosto de 2013

DINÂMICAS DA CIDADE: O MERCADO MUNICIPAL DE POUSO ALEGRE/MG (1970-2004)

FERNANDO HENRIQUE DO VALE
Universidade do Vale do Sapucaí/ Pouso Alegre/MG

ANA EUGÊNIA NUNES DE ANDRADE
Universidade do Vale do Sapucaí/ Pouso Alegre/MG; Pontifícia Universidade Católica/SP 

Resumo. No artigo indagamos o crescimento da cidade com a vinda de indústrias e novas tecnologias. Há um aumento populacional significativo, transformando assim as dinâmicas dos sujeitos sociais. Os discursos dos políticos enfatizam os aspectos econômicos. O Mercado passa por outra reforma, chamando a atenção de turistas e dos moradores da região. Com isso, as práticas culturais acabam sendo sufocadas em virtude de outros investimentos e interesses políticos, sendo que algumas ainda mantêm-se vivas em resistência às novas tendências do comércio.

Palavras-Chave: Industrialização. Mercado. Políticas Públicas.

A década de 70 fora marcada por mudanças no Brasil. Ao mesmo tempo em que a Ditadura Militar se tornava mais severa, através de repressões ditadas pelos Atos Institucionais. Os movimentos sociais lutaram pelo fim do regime, que começa a perder força nos anos 80. Industrialização e modernização são os artífices que os militares irão utilizar para tentar minimizar os atos de seus poderes discricionários e repressivos.
No campo da industrialização, durante o período do suposto “Milagre Econômico”, foram investidas nas cidades verbas para a criação e construção de pólos industriais. As pessoas começaram a sair do campo e as cidades “incharam, crescendo desordenadamente para o alto e para os lados” (HABERT, 2001, p 72). Porém, o denominado milagre não favoreceu a todos, sendo que a maior concentração de riqueza permaneceu nas mãos de poucos, e antes mesmo do final dos anos 70, é apresentado seu resultado:

A conta do “milagre” seria apresentada antes do final dos anos 70. O crescimento acelerado e dependente de poupança estrangeira fez a dívida externa triplicar naquele momento. No início os juros eram baixos. Os contratos, no entanto, previam taxas flutuantes. Quando elas subiram, a dívida externa disparou e, nos anos 80, tornou-se o principal problema da economia brasileira (PILAGALLO, 2004, p.77).

Neste contexto, a cidade de Pouso Alegre aos poucos vai crescendo economicamente. Ao mesmo tempo em que a cidade sofre um esvaziamento populacional, são instaladas as primeiras grandes empresas. De acordo com o censo desta época, a população era estimada em 38.072 habitantes. Assim como as demais cidades, “Pouso Alegre sofreu considerável esvaziamento populacional em virtude das correntes migratórias que demandavam São Paulo e Rio de Janeiro” (ARAÚJO, 2012, p. 28), tendo em vista que nas décadas anteriores havia taxa de crescimento populacional razoável, o que contribuiu para o sistema de urbanização. O processo de industrialização é “há um século e meio, o motor das transformações da sociedade” (LEFEBVRE, 2001, p. 11).
Ao vivenciar o contexto da industrialização, com a instalação de empresas, algumas multinacionais, e a criação de um Distrito Industrial para abrigá-las, notamos a vinda de pessoas de outras regiões, gerando um aumento populacional e, o espaço urbano, começa a assumir novos aspectos tanto paisagísticos, quanto até mesmo nas organizações políticas.
Nesta mesma época, são instaladas as primeiras grandes indústrias em Pouso Alegre, na administração do Dr. Breno José de Carvalho Coutinho[1] (ARENA). Começa-se a pensar na implantação de um “Distrito Industrial”, conseguindo a “inclusão como Pólo de Desenvolvimento junto a Companhia de Distritos Industriais” [2]. O governo estadual libera “financiamentos em longo prazo, para a aquisição de áreas” [3]. Já se faziam presentes a seguintes empresas: Refinações de Milho Brasil: indústria voltada para a produção dos derivados de milho (maisena, óleo, Maionese, etc; Campo Belo S/A: Produtores de doces de uma variedade de frutas, para consumo interno e exportação; Arcaro S/A: Produção de rodas. 
Entre as citadas, no discurso proferido pelo prefeito, encontramos outras indústrias que se instalariam com o apoio das propostas oferecidas pelo governo e pela cidade, como leis de incentivos fiscais, visitas feitas às indústrias e áreas cedidas aos empresários.
A cidade se movimenta e aos poucos suas dinâmicas vão se transformando. Já no final da década de 70, iniciam-se as obras de desvio do leito do Rio Mandu, para a implantação da futura Avenida Perimetral sendo concluída nos anos 80. Esta obra tida pelos políticos como monumental, por muitos foi criticada. 
Em “O Jornal da Cidade” nos deparamos com a seguinte notícia: “E, o velho Mandu está aterrado”. A princípio subentende-se que o veículo impresso criticaria a administração pela obra que estava sendo executada. No decorrer da matéria, focaliza-se o “aterro do velho Rio Mandu que foi desviado para que uma nova e magnífica avenida”[4] surgisse para aliviar a movimentação da região central da cidade. O que nos chama atenção no decorrer da notícia é que o jornal afirma sobre uma suposta valorização que o bairro São Geraldo estaria por receber com estas reformas. O que na realidade estaria muito longe de acontecer, por ser sempre propagada pela imprensa como uma região periférica e carente da cidade, por possuir vários problemas, entre eles a enchente. A obra do desvio do rio para a construção da Avenida Perimetral “acompanhando o progresso do populoso Bairro do Aterrado, junto à grande Avenida Vereador Antônio da Costa Rios (...) compreende o novo plano revolucionário” [5]. Este era o discurso do prefeito João Batista Rosa [6] (PFL), no intuito de favorecer o centro da cidade e de se promover na carreira política.
Com o abalo do Milagre Econômico a as eleições indiretas de João Batista de Figueiredo, o último militar no poder, a Ditadura vai decaindo e o Brasil retorna à democracia. Protestos como a Diretas Já tentam eleger representantes do povo de forma direta e não como estava ocorrendo no governo militar. Percebemos também na década de 80 que as atenções dos políticos estariam se voltando para a industrialização e o desenvolvimento de Pouso Alegre, no sentido também de construir sua carreira e deixar marcas de suas administrações na cidade.
A década de 80, em Pouso Alegre, se marca pela utilização da imagem de uma cidade próspera em obras, realizações e a vinda de novas indústrias multinacionais como no caso da Brasinca Ind. S/A, Sobral Invicta S/A e Latasa (Reynolds Metaes Company). Já no final desta década, a “população da cidade é calculada em 83.000 habitantes com uma população flutuante de 30.000 pessoas”. (ARAÚJO, 2012, p. 28).  
Com a chegada dos anos 90, o Brasil passa a viver o governo de seu primeiro presidente eleito de forma direta depois dos anos ditatoriais. Contudo, Fernando Collor de Melo, após dois anos no poder, sofre impeachment através de denúncias de irregularidades em seu governo. Assume o cargo, então, Itamar Franco, e em seu governo, em 1994, é colocado em prática o Plano Real desenvolvido pelo Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso. Devido ao sucesso deste plano, Cardoso é eleito presidente e permanece por dois mandatos, sendo reeleito em 1998 no primeiro turno. Durante este período, percebemos que governo se voltará para os aspectos econômicos, através de privatizações e a “garantia da estabilidade com juros elevados (...) mantida pelo seu sucessor, o presidente Lula”. (PILAGALLO, 2006, p. 88).
Diante de um aumento de fluxo populacional, visando também à necessidade da entrada e saída de pessoas da cidade, no início da década de 90, é inaugurado o novo Terminal Rodoviário e são iniciadas as obras de duplicação da Rodovia Fernão Dias, obras que atrairão mais pessoas para a cidade.
Ao iniciar o seu mandado, no ano de 1989, em uma coletiva feita pela imprensa, publicada pelo jornal O Município, pertencente ao executivo, o então prefeito Jair Siqueira[7] (PFL), ressalta a importância de estar em contato com a população. Contudo nos chama atenção quando se refere que “a sua maior obra é mudar a mentalidade, as ideias, para que se possam promover mudanças” [8]. Mediante a mudança de mentalidade, Jair ilude a população com seus grandes projetos de transformação e melhorias para a cidade. Porém, suas intenções seriam demarcar espaços e construir sua carreira política.
Através do balanço de seu primeiro ano de governo, o prefeito Jair Siqueira, no Jornal Tribuna Sul Mineira, aborda vários assuntos relativos ao município, destacando a questão do Plano Diretor da cidade e o Mercado Municipal.
Sendo aprovado em 1988, o prefeito buscou aplicá-lo já no início de sua administração. Contudo, o artigo que se refere ao “uso e ocupação do solo, segundo Siqueira, tornou-se inviável ao desenvolvimento do plano, que é um conjunto de leis que estabelece regras para o crescimento da cidade” [9]. Ao ler a coluna do jornal Tribuna Sul Mineira, percebemos que algumas prerrogativas do Plano não estavam em sintonia com o pensamento do atual prefeito, um olhar empreendedorista da cidade.
Com esta visão, o prefeito Jair Siqueira aponta as “Novas Idéias para o Mercado”. Em uma tentativa de mudar o local do Mercado, ele já dava seus primeiros passos para uma remodelação do centro da cidade. Neste sentido, ele utiliza de argumentos que iriam favorecer principalmente os comerciantes mais pobres, tendo em vista que suas intenções eram outras. O projeto, segundo Jair, “tinha-se a idéia de construir outro mercado com a participação dos atuais ocupantes dos boxes do atual” [10].
Com este projeto, os comerciantes não seriam mais permissionários e sim passariam a ser proprietários e a Prefeitura entraria com o terreno, recebendo “um percentual das lojas existentes e com essa verba os comerciantes mais pobres também teriam condições de adquirir um espaço no Mercado, através da ajuda de outros lojistas” [11]. Ao encerrar a matéria, o prefeito apresenta uma nova proposta em que consiste obter “uma licença do Governo Federal daquele armazém onde antigamente estava a Âncora Verlon e dali criar o novo Mercado” [12].
A proposta de mudança do local do Mercado ficou apenas no papel, o prefeito irá retomar a discussão no próximo mandato. Os permissionários se colocam contrários a derrubada do prédio e mais uma vez embora permeado pelos conflitos e disputas sociais, a edificação permanece instalada na área central da cidade desde o século XIX.
O segundo mandato (1993-1997) de João Batista Rosa (PFL) é marcado pelas grandes obras, frutos de um pensamento desenvolvimentista desta época. As vindas de novas indústrias e as execuções das obras da duplicação da Rodovia Fernão Dias deram continuidade ao processo de crescimento populacional, aglomerando-se na denominada região Sul da cidade. Em seu mandato também é construído e inaugurado o Estádio Municipal “Manduzão” o que seria considerado por muitos um elefante branco construído com o dinheiro público. Com seu olhar voltado para realizações que considerava de maior importância, o prefeito João Rosa procurava deixar um rastro de desenvolvimento, e assim como outros políticos que passaram pelo executivo em Pouso Alegre, procurou aproveitar dos momentos da política local para aos poucos traçando sua imagem para o cenário estadual e federal.
Aproximando-se o ano eleitoral, os adversários começam a levantar criticas ao governo em exercício. Uma delas torna-se percebida através do discurso higienista, que volta a ser discutido nessa época através da matéria “Transporte de carne ainda causa transtorno”. O alvo seria os “mangarefes” [13], que ao realizarem seus serviços de transporte de carnes, não conseguem muitas vezes desviar dos consumidores.
Outro problema detectado pelo jornal Sul das Geraes é que “a carne levada nas costas chega aos supermercados, açougues e mercado exposta a todo tipo de poeira, vento e sol” [14], prática considerada pelas pessoas como falta de asseio e higiene. Para muitos “a carne deveria ser transportada, embalada e não exposta como acontece nos dias de hoje” [15]. A mentalidade higienista impera no discurso da imprensa, o periódico aliado ao empresário e político Jair Siqueira ataca o adversário João Batista Rosa, criticando a gestão do atual prefeito frente  a falta de higiene com o transporte de carne na cidade, enfatizando na matéria o Mercado Municipal.
O jornal como porta-voz da sociedade sugere que “no Mercado Municipal a entrada para o carregamento de carne seja feito ao lado dos açougues, local este ocupado hoje por uma pastelaria que poderia ser transferida para outro ponto”[16] para facilitar o transporte das carnes e como também se evidencia na crítica sendo “possível evitar que a maioria dos fregueses do mercado acabe saindo constantemente com as roupas sujas de carne”[17] e para estabelecer também uma ordem no espaço urbano, tanto no quesito de movimento, quanto aos aspectos estéticos. Na visão dos açougues e outros estabelecimentos que comercializam a carne:

ela poderia vir embalada adequadamente em sacos plásticos, evitando ficar exposto ao tempo. Para ser contaminada por bactérias e vírus existentes no ar e na carne precisa apenas de exposição, por menor que seja [18].

Segundo a notícia veiculada no jornal Sul das Geraes, notamos que a maior preocupação das pessoas é com os riscos de contaminação. A imprensa chama a atenção das autoridades políticas para a questão da movimentação dos trabalhadores naquele espaço, no sentido de incomodar a população que por ali circula. No jornal estão expressas as forças enunciativas da instituição jornalística, que se apresenta como a voz da sociedade civil e ao mesmo tempo forças ideológicas de políticas adversárias, influenciando por diversas vezes no pensamento do ser humano. Torna-se claro que através desta matéria, o adversário político do prefeito Rosinha, frente a uma realidade vivida, apontaria os pontos fracos desta administração, prestes a se encerrar.
Em sua segunda gestão (1997-2000), o Prefeito Jair Siqueira (PPB) novamente ressalta seus planos de remodelar o centro de Pouso Alegre. No início do mandato, o jornal o Bandeirante publica o artigo “O Mercado está com os dias contados”. De acordo com o projeto do novo prédio as instalações deveriam ser transferidas para a “Avenida Perimetral, próximo a rotatória que dá acesso para o bairro São Geraldo (...) tendo mais movimento dos consumidores devido a sua localização” [19].
O poder público tenta convencer a população através de materias publicadas na imprensa que, com a construção de um novo prédio, as condições seriam mais funcionais e práticas para os trabalhadores e consumidores. O jornal levanta a questão patrimonial, quando enfatiza que Pouso Alegre tem poucos prédios ou lugares que marcam a sua história. O secretário de Infra-estrutura, Antonio Célio Rios, justifica  que “o Mercado já foi alterado, que o prédio não é o mesmo, tendo perdido muito de suas características”[20].  O espaço se torna um ponto marcante para a cidade. Ao se pensar na preservação desses espaços, devemos

Trazer a relação entre a cidade e a cultura como trabalho de muitos na constituição dos espaços e territórios urbanos, compreendendo que são as relações sociais desenvolvida na cidade que em última análise acabam por definir e delinear a paisagem urbana, a imagem da cidade. Ao mesmo tempo em que buscar essas imagens como impregnadas das memórias e de significações que se constroem, mas que também se modificam pelas experiências e vivências sociais posteriores, exprimindo diferentes temporalidades. Assim captar nessas relações instituídas, o entendimento de modos de viver, de morar, de lutar, de se divertir dos diferentes moradores, que com suas ações estão impregnando e constituindo a sua cultura urbana.  (FENELON, 1999, p. 6).

Ao observar este cuidado que as pessoas têm com o espaço, percebemos a forte relação que elas mantêm com a cidade, seus laços de pertencimento.  Isso nos permite refletir sobre a relação da cidade, seus espaços com seus moradores ou frequentadores tomando aquele espaço através de suas “(...) significações e nos atos de lembrar/viver (...) revelam a cidade nos sentimentos de pertencimento articulados aos territórios de suas vivências e experiências sociais”. (CALVO, 2006, p. 65).  
Na visão dos políticos, a ideia da mudança daquele espaço consistia em “tirar o grande fluxo de veículos do centro, principalmente da área do Mercado Municipal e Catedral” [21]. Como veremos as intenções eram outras. Ao continuar lendo a matéria, nos chama a atenção o fato de o prefeito Jair Siqueira estar pensando em reformular a Praça Senador José Bento, “através de um projeto que a tornaria um calçadão, do tipo Boulevard” [22].
Estas obras fariam parte de um grande plano que o prefeito estaria colocando em pauta para que seu nome se projetasse cada vez mais politicamente e que pudesse se perpetuar na cidade. Apenas a desapropriação de imóveis na Praça Senador Amaral para o alargamento da avenida fora realizada, mesmo contrariando as pessoas que residiam ou mantinham seus pontos comerciais naquele espaço, fazendo com que a Doutor Lisboa ficasse maior e melhor para o trânsito. Ao terminar a matéria, o jornal Bandeirante passa a afirmar que “com as novas obras, a Prefeitura pretende ter um anel viário em Pouso Alegre, ligando as vias de maior movimento, de todas as direções da cidade. É a cidade do ano dois mil” [23].
Aproveitando da situação, o então prefeito procura associar sua imagem com o novo milênio, procurando ressaltar em seu discurso um ciclo de desenvolvimento que levaria a cidade a abraçar o futuro. Com a leitura desta noticia, percebemos que a cidade, na visão de Jair Siqueira, neste momento, se resumiria apenas ao centro, pois as grandes obras do ano dois mil estariam sendo realizadas naquela região, favorecendo assim o espaço econômico e político, onde se concentram o comércio, os bancos, os poderes que regem a cidade e as famílias tradicionais. 
Contrariando a ideia do novo milênio, o cronista Urias de Paiva Neto publica na mesma edição uma coluna opinativa demonstrando sua insatisfação em nome da população de Pouso Alegre. As críticas se dirigem ao prefeito Jair Siqueira e aos seus projetos de reformular o centro da cidade. Em “Outra vez o Mercado”, Urias abre a discussão sobre a nova investida do executivo, em relação ao “prédio do Mercado Municipal, sua localização, tido por ele como inconveniente e prejudicial à circulação de veículos por ali, para configurar sua obsessão em fazer uma praça no lugar” [24].  Esta obsessão a que se refere parte no desejo do administrador em deixar marcas, “trazendo a intenção de serem lembradas pela sua ostentosidade, para com isso, marcarem, para a posteridade, a figura de sua pessoa, tal qual um Nabucodonosor[25], que marcava tudo em seu reino: ‘Eu sou Nabucodonosor’”[26]. Em um tom de ironia, Urias utiliza do espaço jornalístico para colocar seu ponto de vista sobre a questão, que na época, era a opinião de muitos pousoalegrenses que tinham com aquele espaço laços de pertencimento.
Ao se tratar diretamente do Mercado Municipal, o cronista aponta para a questão de enormes gastos em relação à construção de um novo prédio sem trazer nenhum benefício para os tradicionais mercadores, que certamente “não vão se arriscar em uma aventura só por que o Prefeito quer aparecer”. E, ainda, aponta que órgãos públicos como a Câmara Municipal “poderá ter uma responsabilidade muito grande em tal decisão, que ao se concretizar, será um Mercado às moscas, morto, sem movimento e nem como tal poderá ser tido” [27].
Ao falar da movimentação, Urias nos chama atenção para o fato de que a descentralização deste ponto de encontro de sociabilidade ocasionaria a perda de frequentadores, que muitas das vezes estando no centro, param ali para conversar ou comprar alguma coisa. Ao encerrar suas críticas, nos deixa claro que a “praça dos sonhos do prefeito” será apenas uma nesga[28] de terrenos, sendo a “continuidade do que existe na Praça Duque de Caxias e será ocupada por barracas, tendas de pequenos comércio, as de lanche inclusive: será a continuidade da feiúra da praça existente”[29]. Entretanto, o prefeito e sua administração deveriam dar atenção a outros problemas existentes na cidade, como ruas esburacadas, calçamentos antigos, tratamento de esgoto entre outras. “Isso não marca administração; obras faraônicas, sim e faz lembrar um velho ditado e aplicável: Pouso Alegre, ‘por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento” [30].
A preocupação, neste sentido, seria mais uma vez com o embelezamento e aspectos funcionais da região central da cidade, sendo que as outras regiões, principalmente, as periféricas, necessitavam de obras e de uma maior atenção. Enquanto isso, imagem do centro se torna mais uma vez o cartão postal de toda a cidade.
 Os planos da retirada do prédio do Mercado Municipal do centro da cidade irão perpassar o ano 2000, até os últimos dias do segundo mandato de Jair Siqueira. O perfil do político é traçado pelo Jornal “O Progresso”: “Não é um homem popular. Não é visto nos bairros mais humildes. Não se vê o prefeito andando pelas ruas da cidade (...) [31] nos passando a ideia, neste trecho, que o representante da cidade não conhece as necessidades do povo e do espaço, por não estar em contato direto com a cidade. Apenas estar exercendo uma função de seu trabalho.
Nos primeiros meses do ano 2000, de uma vez por todas, os comerciantes desaprovam a mudança do prédio. Conforme noticiado no jornal “O Tempo de Pouso Alegre”, favorável ao candidato Enéas Chiarinni (PMDB), que circulou apenas no período das eleições municipais, a provável localização do Mercado se torna rejeitada pela maioria dos comerciantes que estavam revoltados com a possível mudança para um local afastado do centro da cidade.
Este novo endereço “teria suas proximidades da Avenida Dique, local que, segundo os comerciantes, sofre inundações com as chuvas e dificulta o acesso aos clientes necessitando de condução” [32], e se as vendas estavam fracas na época, ficariam ainda piores com a dificuldade de acesso. Apesar de estarem em dia com as taxas municipais, os comerciantes e o próprio prédio necessitam de mais atenção do governo público, visto não terem, pois o prédio sempre foi objeto de outros interesses. 

A população que mais sofre com este déficit de planejamento urbano é a de menor poder aquisitivo, pois, na sociedade capitalista, como não poderia ser diferente, o espaço urbano é considerado uma mercadoria, e neste caso possui um valor de troca. (ANDRADE, 2012, p. 4).

O espaço do Mercado Municipal, a partir da administração de Enéas Chiarini[33], passará a assumir outro sentido. Já não se falará mais de remoção do prédio, e sim, em valorização daquele lugar, como patrimônio da cidade voltado ao turismo, confirmando assim que “preserva-se em atendimento às exigências do turismo, a grande indústria moderna que maneja quantias incríveis (...) definidoras de peculiaridades regionais aptas a estar sempre despertando a curiosidade (...)” (LEMOS, 1985, p. 30) dos visitantes. O interesse se estabelece através da economia local assim ligada ao comércio, que se dá através das pessoas, “suas tradições e costumes do dia-a-dia; em seu patrimônio; nos produtos de sua cultura material e imaterial”. (YAZIGI, 2009, p. 13).
Nos primeiros dias de seu mandato, Enéas, através do Jornal “Gente em Ação”, expõe “Novos Projetos para melhorar o ‘Mercadão’”. Em seu projeto, visa a atração de turistas pela diversidade de artigos vendidos no local. Segundo ele, “é projeto nosso valorizar o Mercado Municipal, deixando-o mais agradável para todos que dele se utilizam” [34].
Diferentemente da administração anterior, preocupada com aspectos urbanísticos e estruturais da cidade, esta visava uma política de cunho econômico. Ao reformar o Mercado, ao torná-lo um ponto atrativo para as pessoas e os turistas, o comércio iria se fortalecer e a cidade estaria caminhando aos poucos ao sistema turístico. O Jornal Gente em Ação ainda ressalta que os turistas buscam adquirir, no Mercado, o artesanato, produtos comestíveis, e também artigos como fumo de rolo, palha, esponja de bucha, varas de pesca e outros.
Com intuito de receber melhor o turista, assim afirmava o secretário de Agricultura e Abastecimento da época, Walter Modesto, que “estão previstas obras como reforma de sanitários, troca de pisos, pintura do prédio e revisão de toda a parte elétrica” [35]. Estas seriam estratégias de marketing, ou seja, táticas para atrair as pessoas para o espaço. Um dos comerciantes, em depoimento ao “Jornal do Estado”, afirma que “as vendas deste ano cresceram em média 30%, em relação a 2002” [36] sendo que os principais consumidores são turistas vindos do estado de São Paulo em busca de queijos e doces caseiros. Neste sentido, percebemos que o turismo

(...) acompanha as transformações do fenômeno capitalista. Nas últimas décadas, a busca pela qualidade de vida, pelo prazer, pela sensação de liberdade, pela valorização das diferenças culturais que caracterizam o “estilo de vida” da sociedade vem desencadeando profundas mudanças nas práticas tradicionais do turismo. (SOUZA, 2005, p. 54-55).

Se antes tínhamos um turismo mais voltado para praias, montanhas, lugares exóticos, hoje          percebemos que as pessoas dos grandes centros são atraídas para as cidades do interior, onde encontram fugas do movimento frenético da cidade grande. Acompanhado dessa busca de descanso, está à busca pela cultura e as práticas daquele determinado lugar, ou seja, produtos artesanais e alimentícios. No caso da cidade de Pouso Alegre, tais produtos são encontrados no Mercado Municipal, onde as práticas e o comércio são passados de pais para filhos.
Com a ideia de se revitalizar o prédio do Mercado Municipal, dando aspectos modernos ao mesmo, surge em conjunto a concepção de um novo shopping para Pouso Alegre. Assim era estampado nas páginas do “Jornal do Estado” no início do ano de 2004: “O Mercado Municipal de Pouso Alegre, em breve, um novo shopping para o Sul de Minas, com arquitetura Moderna, aplicação de materiais de última geração e alta tecnologia” [37].  As valorizações deste espaço e de suas práticas culturais como um bem patrimonial da cidade se tornam objetos de puro interesse desta administração. A revitalização do prédio nos leva a entender que

(...) os monumentos e o patrimônio histórico adquirem uma dupla função- obras que propiciam saber e prazer, postas à disposição de todos; mas também produtos culturais, fabricados, empacotados e distribuídos para serem consumidos. (CHOAY, 2001, p. 210). 

Neste período, perceberemos assim os jogos de interesses da administração pública, da empresa responsável pelas obras do prédio e do órgão de imprensa que veiculará as propagandas do projeto Mercado como um novo Shopping para Pouso Alegre sendo de propriedade da família Foch, um grupo de construtores e diretores do referido órgão impresso da cidade.
No decorrer da reforma, o secretário de Planejamento Urbano da época, arquiteto Ricardo Galvão Lima, é entrevistado pelo “Jornal do Estado” avaliando as obras do Mercado. Neste momento, se refere ao prazo de entrega da revitalização e aborda os benefícios que as obras trariam para a cidade. Segundo Galvão, “as reformas visam além da melhoria da qualidade dos serviços prestados nesse espaço público, a preservação da memória cultural que o Mercado simboliza na evolução histórica da cidade” [38], e que classificar um edifício público como Patrimônio Histórico “não se refere apenas à sua arquitetura, mas também à sua importância como referencial para a população” [39]. E, mesmo sendo, muitas vezes taxado como “atrasado, acanhado, debilitado, feio, sujo, inconveniente, se mantém vivo e ativo no centro da cidade” [40]. Através destas afirmações, percebemos outro jogo de interesse da administração vigente: manter o prédio no mesmo espaço. Mesmo que não tenha sido tombado oficialmente como Patrimônio Histórico e Cultural da cidade, estreitou laços de pertencimento na vida da cidade e na vida daqueles que ali residem.
O arquiteto também critica a administração passada através do “projeto de construção do Novo Mercado Municipal” nas imediações da Avenida Perimetral. Em sua concepção, foi “desenvolvido por pessoas sem nenhuma formação técnica ou acadêmica” fazendo parte de projetos que foram engavetados, e sim “obras criminosas, heranças deixadas para a atual administração” [41]. As críticas apresentadas pelo engenheiro à administração passada vêm a reforçar ou promover à atual, tendo em vista a continuação no poder. Outro veículo impresso de Pouso Alegre irá publicar uma matéria mostrando outro lado deste período da reforma. A chamada “Reforma do Mercado Municipal gera polêmica: a obra divide os comerciantes e já causou até brigas entre donos de jornais”. Tomamos conhecimento da divergência de opiniões na cidade entre a demolição do prédio e a reforma do mesmo. São duas linhas políticas que ainda atuam fortemente na cidade, dividindo assim até mesmo a população. Porém, o que mais chama atenção neste mesmo artigo é a discussão dos donos de dois jornais da cidade, “O Bandeirante, Stella Cobra, e o Jornal do Estado, Sebastião Foch, também proprietário da empreiteira ‘Real Minas’, que realiza a obra” [42]. Segundo a matéria, Stella Cobra fazia uma matéria jornalística sobre os trabalhos no local, quando foi abordada por Foch que passou a xingá-la. O caso foi registrado na delegacia. Os dois não quiseram falar sobre o assunto. Através do ocorrido, percebemos a rivalidade política entre os donos dos dois órgãos impressos como também o monopólio do “Jornal do Estado” em noticiar aquilo que estavam construindo como também o projeto que desejam implantar na cidade.
Os efeitos da reforma alteraram totalmente seus aspectos externos, “buscando trazer elementos fundamentais dos dois antigos prédios trazendo elementos marcantes e característicos de sua arquitetura” (MELLO, 2011, p. 38) em um tom pós-moderno. Notamos a presença de azulejos em todo seu entorno, principalmente acompanhando as janelas grandes voltadas para praça central, dando assim um aspecto moderno chamando atenção daqueles que por ali passam. Neste sentido,

A sociedade capitalista se apresenta como sociedade do espetáculo, tal qual definiu Debord. Importa mais do que tudo a imagem, a aparência, a exibição. A ostentação do consumo vale mais que o próprio consumo. O reino do capital fictício atinge o máximo de amplitude ao exigir que a vida se torne ficção da vida. A alienação do ser toma o lugar do próprio ser. A aparência se impõe por cima da existência. Parecer é mais importante que ser. (GORENDER, 1999, p. 125).

No interior do Mercado, percebemos que as práticas sociais que sempre estiveram presentes continuam sobrevivendo ao novo e ao moderno que aos poucos vai se instalando. O que nos chama a atenção é a variedade de produtos que compartilham o mesmo espaço em boxes ou estabelecimentos comerciais passando de geração em geração. Isso se dá através do hibridismo (CANCLINI, 2006, p. 283-350), ou seja, através da relação de uma cultura com a outra e, também, com a mescla, cujo encontro resulta de várias culturas, gera uma fusão, interagindo em um mesmo espaço. Trata-se também de uma forma de sobrevivência.

Mesmo quando o grupo passa por um processo de transformação, ele se adapta a nova situação guardando seus costumes tradicionais, sem adotar costumes que poderiam ser compartilhados com elementos de outros grupos, ou dos grupos com que passam a estar em contato. (COHEN , 1974, p. 124).

Mesmo com as rápidas mudanças que o mundo vem sofrendo através, dos avanços tecnológicos, há uma grande procura por produtos artesanais e até mesmo caseiros, como meros objetos destinados para enfeites ou até mesmo para aguçar o paladar. Atualmente, 70% dos boxes que se encontram no espaço do Mercado Municipal são destinados à alimentação, um restaurante que serve almoço diariamente, como também alguns bares ou butecos que servem vários tira-gostos como torresmo, chouriço, pé de porco, joellho, costela de boi, peixe frito e o tradicional pastel de farinha de milho.
Entre queijos de diversos tipos e marcas, encontram-se cachaças artesanais e industriais, diversos tipos de molhos de pimenta, doces caseiros e pasta ou grandes barras de goiabada cascão, bolachas de nata, gêneros que muitas vezes não são encontrados em supermercados. Além do comércio gastronômico, encontramos grande variedade em frutas, legumes e verduras que são vendidos diariamente, de domingo a domingo. Chama-nos a atenção também a presença de dois boxes destinados à venda de produtos para umbanda. Nele podem ser encontradas imagens, velas de diversas cores, incensos, rituais entre outros. Divide seu espaço com a venda de fogos de artifícios e uma tabacaria variada. Nela são vendidos também cachimbos, fumo de corda e os tradicionais cigarros de palha, produzidos em Pouso Alegre e em outras regiões.
Com a última revitalização do prédio, surgem práticas comerciais voltadas para a questão do turismo. A imagem, no entanto, se torna de suma importância para a divulgação de um espaço e seu produto, principalmente, quando a tendência é torná-lo turístico.  No interior do Mercado, notaremos certos aspectos que nos dão a ideia de um shopping.
Em 2004, o Jornal do Estado enfocará o “Projeto Mercashopping”, ação esta proposta pela Prefeitura Municipal em parceria com o Clube de Vendas e com fundo publicitário da empresa do mesmo Jornal. Neste intuito, o jornal realizou algumas reportagens sobre a inovação feita no Mercado que contribuiu para ser uma atração turística da cidade.
Segundo informações do artigo feito, “os comerciantes estão motivados com o aumento das vendas após a revitalização do prédio, que corresponde de 30 a 50% (...) contribuindo com a lucratividade dos lojistas” [43] e também com a da classe empresarial interessada, ganhando mais que os próprios donos dos estabelecimentos. O planejamento consistiria também em parceria com alguns hotéis da cidade, trabalhando para a “atração de turistas, como é o caso do Hotel Maracanã, que contrata o trenzinho da alegria para levarem os visitantes a conhecerem a cidade e principalmente o Mercado” [44]. A partir disso podemos dizer que o turismo passa a ser

(...) uma atividade que perpassa todas as esferas da sociedade, envolvendo a economia, a educação, os transportes, as comunicações. É um fenômeno com consequências sociais, culturais, políticas que se tornou um direito e um desejo de todos os cidadãos e, como tal objeto de consumo do mundo globalizado. (SOUZA, 2005, p.11).

Levamos em conta também que a atividade turística, além de ser um produto de interesse de alguns, fortalece a imagem da cultura. Todavia contribui para a modificação da paisagem local. Tomamos assim nosso objeto de pesquisa e percebemos que durante o tempo aquele espaço fora modificado.
Durante o desenvolvimento desta pesquisa, pudemos perceber que o crescimento da cidade e o aumento populacional se deram com a instalação de empresas, com a duplicação da Rodovia Fernão Dias. Com este crescimento, espaços foram modificados, muitas vezes contra a vontade daqueles que possuíam um laço de pertencimento com a cidade. Os políticos, através de grandes obras, procuraram deixar suas marcas, muitos tendo a oportunidade de crescerem ainda mais em suas carreiras.
Neste sentido, o Mercado Municipal de Pouso Alegre passa por mais uma revitalização, sendo mais uma vez descaracterizado em função de políticas voltadas para seus interesses próprios. Assumindo a proposta de uma arquitetura moderna, chama a atenção daqueles que passam naquele espaço, principalmente das pessoas que visitam a cidade. Ao entramos no espaço do Mercado, percebemos que algumas práticas culturais assumem uma nova roupagem em virtude do turismo, enquanto outras acabam sendo sufocadas ou até mesmo lutam para se manter vivas perante uma nova dinâmica comercial que aos poucos vai ganhando mais espaço.
A partir das leituras dos jornais, perceberemos discursos voltados para aspectos econômicos e organizacionais da cidade, nos quais cada prefeito buscará deixar sua marca quer seja em obras executadas quer seja em projetos idealizados. A preocupação com a imagem da cidade se torna mais uma vez uma constante, porém, assumindo um novo aspecto, no intuito de inseri-la no cenário nacional priorizando a questão do turismo.
Apesar dos diferentes interesses políticos, o Mercado Municipal permanece no mesmo lugar, até os dias atuais. Podemos considerar neste movimento da história, que o Mercado constitui um bem patrimonial da cidade, mesmo sendo de caráter imaterial[45], constituído pelas práticas, culturas, saberes e viveres que se entrelaçam e formam a identidade e as memórias de Pouso Alegre e região.

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[1]Nascido em Pouso Alegre 13/04/1919, atuou como Prefeito de Pouso Alegre de 31/01/1971 a 31/01/1973. Faleceu em 01/10/2004. 
[2] Discurso do Término de Mandato do Dr. Breno Coutinho, disponível no Acervo do MHMTT.
[3] Idem.
[4] Jornal da Cidade, 01/06/1980, ano I, nº7, p. 03.
[5] Idem.
[6]Nascido em Estiva em 11/06/1933. Atuou como Prefeito em Pouso Alegre nos seguintes mandatos: 31/01/1977 a 13/05/1982, quando se retira para candidatar-se a Deputado Estadual. Retorna a Prefeitura e, 01/01/1993 a 01/01/1997.
[7]Nascido em Paulistas- MG, em 30/06/1936, esteve a frente da cidade em 3 legislaturas: 1989-1992; 1997-2000; 2005-2008. Em 1994 foi Eleito Deputado Federal até o ano de 1996, quando renuncia para disputar as eleições para Prefeito.
[8] O Município, 03/04/1989, ano IV, n°52, capa.
[9] Tribuna Sul Mineira, 16/12/1990, ano I, nº7, p. 03.
[10] Tribuna Sul Mineira, 16/12/1990, ano I, nº7, p. 03.
[11] Idem.
[12] Ibd.
[13]Termo popularmente utilizado ao se referir às pessoas que transportam nas costas as partes dianteiras dos animais abatidos nos matadouros.
[14] Sul das Geraes, 26/07/1996, ano 11, nº654, p.3.
[15]Idem.
[16] Sul das Geraes, 26/07/1996, ano 11, nº654, p.3.
[17] Idem.  
[18] Ibd.
[19] O Bandeirante, 11/10/1997, ano II, nº89, capa.
[20] Idem, p.03
[21] O Bandeirante, 11/10/1997, ano II, nº 89, p. 03.
[22] Idem.
[23] Ibd.
[24] Ibd. 
[25] Foi o quarto rei da Segunda Dinastia de Isin e Quarta Dinastia da Babilônia. Ele governou por 23 anos de acordo com a Lista de Reis da Babilônia, e foi o monarca mais proeminente desta dinastia. Realizou grandes construções deixando sua marca.
[26] Idem.
[27] Ibd.
[28] Pequena porção de terra.
[29] O Bandeirante, 11/10/1997, ano II, nº 89, p. 02.
[30] Idem.
[31] O Progresso, 13/03/1998, ano III, nº114, p. 03.
[32] O Tempo de Pouso Alegre, 07/04/2000, ano 1, nº25, p.09. 
[33]Nascido em Pouso Alegre em 24/11/1946.  Exerceu o cargo de Prefeito durante os anos de 2001 a 2004.
[34]Gente em Ação, 10/08/2001, ano 3, nº97, p.11.
[35]Ibdem.
[36] Jornal do Estado, 28/11/2003, ano 18, nº861, p.11.
[37] Jornal do Estado, 20/02/2004, ano 18, nº872, p. 15.
[38] Jornal do Estado, 20/02/2004, ano 18, nº872, p. 15.
[39] Idem. 
[40] Ibd.
[41] Ibd.
[42] Diário do Sapucaí, 02/04/2004, nº68, p. 03.
[43] Jornal do Estado, 24/09/2004, ano 18, nº 962, p.4.
[44] Idem.
[45]Transmitido de geração para geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana. In: MELLO, Rogério Stokler de. Dossiê de tombamento do Mercado Municipal de Pouso Alegre. Belo Horizonte: MGTM Ltda, 2011, p.73.
IDENTIDADE, CULTURA, MEMÓRIA E RESISTÊNCIA PELAS PÁGINAS DO JORNAL 28 DE SETEMBRO EM POUSO ALEGRE/MG

JONATAS ROQUE RIBEIRO
Universidade do Vale do Sapucaí/Pouso Alegre/MG

ELIZABETE MARIA ESPÍNDOLA
Universidade do Vale do Sapucaí/Pouso Alegre/MG; Universidade Federal de Minas Gerais
  

Resumo: O presente artigo buscou analisar os discursos identitários do Jornal O 28 de Setembro, seguindo os procedimentos teórico-metodológicos apontado por Maria do Rosário da Cunha Peixoto e Heloísa de Faria Cruz no artigo “Na Oficina do Historiador: conversas sobre História e Imprensa”. O jornal foi produzido e mantido pelo Clube negro pousoalegrense 28 de Setembro. O Clube, ao longo de sua existência, evidenciou práticas culturais de afirmação e valorização da cultura, da identidade e da memória dos afrodescendentes, e uma destas práticas, foi o jornal O 28 de Setembro, que trazia em suas páginas os discursos e ideologias dos seus representantes, posicionando-se politicamente frente à sociedade pouso-alegrense.


Palavras-Chave: Linguagem. Discurso. Identidade.

O presente artigo tem como proposta analisar os discursos identitários do Jornal O 28 de Setembro, criado pela Diretoria do Clube 28 de Setembro. O Clube foi fundado em 1904 para acolher a comunidade negra local, este também, foi um espaço importante para a manifestação da cultura e da memória afrodescendente na cidade.
Ao se trabalhar com a imprensa, é importante salientar que inicialmente, a imprensa como fonte histórica, não era aceita como documento pela historiografia, por ser considerada fonte suspeita, portanto, deveria ser vista e usada com cautela. “Neste contexto os jornais pareciam pouco adequados para a abordagem recuperação do passado, uma vez que essas ‘enciclopédias do cotidiano’ continham registros fragmentários do presente, realizado sob influxo de interesses, compromissos e paixões” (PINSKY, 2008, p. 112). O uso dos impressos como fontes historiográficas surge com maior frequência a partir da década de 1970, através da História Nova, que coloca no campo historiográfico, novos documentos, como por exemplo, a imprensa.

Gradativamente a imprensa pôde ser tomada como importante fonte, e mesmo como objeto, para se fazer análise de discursos e procurar desnudar o jogo de interesses que regem a sociedade. (...) A variedade de fontes impressas é enorme, e suas possibilidades de pesquisa são amplas e variadas (GUARNIERI E ALVES, 2007).

Segundo Heloísa Cruz e Maria do Rosário, a imprensa é um:

“Manancial fértil para o conhecimento do passado”, “fonte de informação cotidiana”, “material privilegiado para a recuperação dos acontecimentos históricos” são alguns dos qualificativos sobre a utilidade da imprensa para a pesquisa histórica. (...) A imprensa é linguagem constitutiva do social, detém uma historicidade e peculiaridades próprias, e requer ser trabalhada e compreendida como tal, desvendando, a cada momento, as relações imprensa /sociedade, e os movimentos de constituição e instituição do social que esta relação propõe (CRUZ E PEIXOTO, 2007, pp. 256-260).

O uso adequado e cuidadoso de impressos na pesquisa histórica pode contribuir e enriquecer grandemente uma pesquisa. Ao usar destas fontes em nosso trabalho, conseguimos reconstituir, analisar e compreender parte da trajetória das relações sociais e das estratégias de resistência articuladas pelos sujeitos sociais. Sujeitos que frequentavam o Clube na intenção de inserirem-se na globalidade das relações sociais. Sobre os documentos impressos é importante procurar:

Observar o ambiente em que foram produzidos, a que tipo de sociedade está vinculado, quais os valores e circunstâncias da época, em síntese, entendê-lo no seu contexto para evitar um dos piores pecados do historiador: o anacronismo (GUARNIERI E ALVES, 2007).

A documentação impressa usada, neste artigo, foi o jornal: O 28 de Setembro, tal jornal foi publicado em Pouso Alegre entre os anos de 1922 e 1924, e encontra-se arquivado nos acervos do Museu Histórico Municipal de Pouso Alegre. Usamos este jornal, analisando-o, conforme a época e espaço em que foi produzido, como também, por quem foi produzido e a quem se destinava, assim conseguimos visualizar, analisar e compreender parte das relações existentes entre o Clube e a sociedade de Pouso Alegre. Este jornal noticiava as atividades promovidas pelo Clube, como as festividades, as disputas internas, pelas crises financeiras e pela má administração.
Ao longo de sua trajetória o Clube produziu dois pequenos jornais que circularam por pouco tempo, estes representavam um meio de comunicação com seus membros, mas principalmente com a sociedade. O primeiro jornal produzido pelo Clube foi intitulado de A Verdade e circulou nos anos de 1904 e 1905, este período marca os anos iniciais do Clube, infelizmente não encontramos os exemplares deste jornal. Em pesquisa nos memorialistas da cidade encontramos os relatos de Otávio Gouvêa que diz que: “além da finalidade recreativa, o clube também, cuidava da parte cultural, publicando um semanário, ‘A Verdade’ (1904/05)” (Gouvêa, 2004, p. 185) e de Amadeu de Queiróz que relata que o Clube produziu o jornal:

A Verdade – Órgão literário do Clube 28 de Setembro, fundado pelos pretos de Pouso Alegre. Semanário, formato pequeno, 26x16, impresso em seis páginas de duas colunas, publicou-se de 2 de outubro de 1904 à março de 1905. Redator: José Capelache da Silva, gerente: Mirabeau Ludovico (QUEIRÓZ, 1998, p. 92).

De acordo com o memorialista Otávio Gouvêa, o Clube tinha, além das finalidades festivas, as literárias, representada pela produção do jornal A Verdade. O poeta e memorialista Amadeu de Queiróz, afirma que o referido jornal foi feito pelos pretos da cidade. Interessante notar, que o memorialista usa a categoria pretos, o que ainda, remete, a memória da escravidão. O jornal tinha uma função literária, mas tinha, também, uma ação política no sentido de construir uma identidade racial. Ainda de acordo com os relatos, era um jornal de formato pequeno e publicado semanalmente, tinha como redator José Capelache da Silva, que era um comerciante local, e sócio do Clube, e como gerente Mirabeau Ludovico, sobre a história de Mirabeau, sabemos que ele nasceu em Araxá, MG, em fins da década de 1880. Sabe-se pouco sobre sua trajetória, mas, nestas poucas informações consta que este foi criado por uma família de elite daquela cidade. Chegou a Pouso Alegre, no início do século passado, onde foi acolhido pelo bispo D. João Baptista Corrêa Nery, possivelmente, tenha sido indicado para o serviço por alguém próximo ao bispo. Trabalhou durante toda a sua vida no Palácio Episcopal a serviço dos bispos (ARAÚJO, 1997, p. 130).
Sua primeira publicação deu-se logo depois da fundação do Clube, já que este foi fundado em setembro e a primeira edição do jornal saiu em outubro, ambos no ano de 1904. Tal jornal teve a duração de apenas seis meses e o motivo de seu encerramento é desconhecido, pois não há documentação acerca do mesmo. Todavia acreditamos que a curta duração do jornal pode ser atribuída aos custos de sua produção. Não conseguimos ter acesso aos custos que o jornal gerava, nem aos custos da comercialização do jornal, mas sabendo que o Clube era mantido pelas doações e mensalidade dos seus sócios, que em sua maioria, provinham de uma classe pobre, acreditamos que os custos do jornal confrontavam-se com a renda do Clube, ocasionado, assim, no encerramento da elaboração e publicação do mesmo.
O segundo e último jornal produzido pelo Clube, intitulado O 28 de Setembro – Orgam Litterário e noticioso dos homens de côr de Pouso Alegre (Jornal O 28 de Setembro, 1922, p. 1) começou a ser publicado em 1922 e durou até o ano de 1924, como indica Amadeu de Queiróz: “O 28 de Setembro – Órgão literário dos homens de cor de Pouso Alegre. Dirigido por Mirabeau Ludovico e José Capelache, formato 28x20, saiu em 1° de junho de 1922” (QUEIRÓZ, 1998, pp. 98-99).
Tivemos contato com alguns dos exemplares do jornal que, apesar de muito antigos, estão em bom estado de conservação e tivemos acesso aos originais do mesmo.  Encontram-se, no Museu, apenas doze exemplares do jornal, distribuídos entre as edições de junho, setembro e outubro de 1922. O restante dos exemplares, por falta de cuidados e preservação desapareceram, resultando na ocultação parcial da trajetória, das histórias e das memórias acerca do Clube, mas, salientamos, que mesmo, com pouco exemplares, foi possível, fazer uma perspicaz análise dos discursos identitários dos representantes do jornal O 28 de Setembro. Todas as edições analisadas são compostas de cinco páginas, onde se desdobram vários assuntos ligados ao cotidiano do Clube e da cidade de Pouso Alegre.
O jornal O 28 de Setembro foi criado e dirigido pelos principais colaboradores e componentes da diretoria do Clube, os senhores Mirabeau Ludovico como diretor, José Capelache como redator chefe, e como secretário Pedro Ângelo de Oliveira. Através do título do jornal, o Clube tentava criar uma identidade tanto para o Clube, como para o seu jornal, que remete a uma consciência identitária racial percebida através do termo “homem de cor”.
Neste sentido é importante entendermos os sentidos atribuídos pelos afrodescendentes ao termo homens de cor. De acordo com Mariza de Carvalho Soares (SOARES, 2000), até a segunda metade do século XIX, o termo negro ou preto referia-se à condição escrava, atual ou passada (forro). Os pardos eram duplamente qualificados como cativos, forros ou livres. Para os homens livres, o termo pardo era atribuído ao não branco. Na segunda metade do século, entretanto, à referência a cor branca desaparece e o critério cor continuará a ser usado apenas para se referir a um recém liberto, marcando, portanto, a condição cativa do sujeito e sua descendência. A autora ressalta que apesar dos homens de cor não terem passado pelas experiências da escravidão, estes se viam e se aceitavam como negros e tinham orgulho de sua etnia, bem como de suas culturas.
Assim, entendemos que os sujeitos sociais frequentadores do Clube, em sua maioria, eram afrodescendentes e tendo uma consciência identitária de base, também racial, nomeavam seus espaços, práticas e discursos como sendo de homens de cor, pois isto os qualificava como sendo de descendência étnica, racial e culturalmente africanas.
O pequeno jornal era publicado mensalmente, não havendo dia específico para a distribuição do mesmo, constituía-se de quatro a cinco folhas, e sua circulação dava-se de forma interna, entre os seus associados. Entre as suas funções, estava a de anunciar a programação do Clube, comunicar ao público os resultados das eleições de sua diretoria, homenagens e notas curtas com finalidades diversas. Mas acreditamos que sua principal função fosse mostrar voz ativa na sociedade.
Dentre os inúmeros assuntos abordados em sua edição, o mês de maio constituía-se como um período importante para o Clube, pois este era um mês de importantes significados, valores e celebrações para a comunidade negra. Lembrando que em 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel, regente política do Brasil assinou a Lei Áurea, abolindo definitivamente o trabalho escravo no país. Porém ressaltamos que embora esta liberdade tenha vindo por mãos brancas, grande parte dos africanos e seus descendentes já viviam em liberdade no Brasil, liberdade esta conquistada com muito esforço, através da compra da própria alforria, a Lei do Ventre Livre e batalhas travadas através de longos processos de liberdade.
Segundo o jornal, as celebrações ao dia 13 eram marcadas por grandes exaltações e festividades feitas pela comunidade negra de Pouso Alegre e de outras comunidades negras vizinhas, como de Santa Rita do Sapucaí e Itajubá, como segue abaixo noticiado:

Recebemos um delicado cartão de convite do Club 13 de Maio de Santa Rita do Sapucahy, para as festas realizadas ali, naquelle dia. Por estarmos também em festa na mesma data, não foi possível, representar a nossa sociedade, naquelle dia. Enviamo-lhes congratulações e pedimos mil desculpas (Jornal O 28 de Setembro, 1922, p. 1).

Para ambas as entidades, o 13 de Maio era uma das datas mais importantes para sua história e memória. Para estes, rememorar a abolição era também rememorar o tempo do cativeiro e a liberdade, bem como a memória daqueles que nasceram e morreram neste. Nota-se, também, no noticiário, as relações de sociabilidade construídas entre o Clube 28 de Setembro e os clubes negros da região. Isso nos mostra as tentativas empreendidas pela comunidade negra, freqüentadora destes Clubes, de manterem vivas as suas identidades, culturas e memória, resistindo aos preconceitos, à discriminação e a marginalização social e cultural.
Na mesma edição deste jornal, encontramos a notícia sobre as comemorações do dia 13 de maio feitas pelo Clube 28 de Setembro:

Realizou se no dia 13 de Maio, solemnes festas em homenagem a gloriosa data.
A’s 5 horas da madrugada alvorada pela corporação Lira do Rosário. Houve na Cathedral missa com cantigos.
A’s 17 horas foi recebida na gare da Sul Mineira a sympathica Sociedade 13 de Maio de Itajubá.
A’s 9 horas da noite no vasto salão do Iris Cinema, imponente Sessão Solemne, presidida pelo sr. João Thigorio, digno presidente da Sociedade 13 de Maio de Itajubá, que deu em seguida, a palavra ao sr. Dr. João Miguel, digno orador oficial daquella sociedade, que saudou o Club 28 de Setembro. Em seguida fallou o sr. Jose Capelache, orador official do Clube 28 de Setembro. Logo em seguida falaram os srs. Elizeu Camargo pela data, em substancioso discurso, representado O Imparcial, e o sr. Alfredo Agueda, pela palavra concedida pelo Club.
Fallou ultimamente, o sr. Mirabeau Ludovico, saudando o Club 13 de Maio Itajubense, em nome da nossa associação 28 de Setembro.
Poesias recitadas pelas meninas Apparecida Xavier, Maria Capelache e Lourdes de Oliveira, que ao terminar offereceu um lindo ramalhete de flores a sociedade 13 de Maio de Itajubá. Ao encerrar a sessão, foi um grupo de meninas e senhorinhas cantando o hymno de nossa casa e idolatrada Patria (Jornal O 28 de Setembro, 1922, p. 3).

As comemorações em louvor ao dia 13 de maio consistiam em variadas atividades que movimentavam a comunidade negra da cidade de Pouso Alegre. As solenidades se iniciavam ao amanhecer com uma alvorada feita pela Lira do Rosário, seguida de uma missa na catedral do Bom Jesus. Percebemos, aqui, por um momento do ano, há uma proximidade entre os negros da cidade e a população branca que também frequentava a catedral, é um momento de afirmação da memória e da cultura africana na cidade. 
Após as comemorações religiosas, havia a recepção, na estação da Rede Mineira de Viação, localizada no início da Avenida Dr. Lisboa, um dos principais logradouros da cidade, dos associados do Clube 13 de Maio da cidade de Itajubá. Durante a noite era realizado no salão do Iris Cinema, uma sessão rodeada de discursos proclamados por diferentes sujeitos sociais associados e não associados aos Clubes, declamações de poemas, congratulações e o canto do hino do Clube e do hino nacional. Em muitas destas festas, houve a participação de autoridades locais, como juízes, políticos, jornalistas, entre outros.
As comemorações invadiam os espaços da cidade, não ficando reclusa ao apenas ao Clube, ela penetrava em espaços importantes da cidade naquele momento, como a catedral, a estação ferroviária e o prédio do Iris Cinema que situava-se na Praça Senador José Bento, principais redutos sociais da cidade. Percebemos também que havia convidados especiais, como o representante do jornal O Imparcial, um influente jornalista da cidade. Acreditamos que sua presença na festa, era um sinal de que ele prestigiava as comemorações do Clube, e também, que o Clube mantinha relações sociais em vários setores da sociedade local. A comemoração ao dia 13 era um momento em que os negros dominavam parte da cidade e faziam dela palco para as suas manifestações culturais e exaltação das suas memórias e trajetórias, porém ressaltamos, que a ideia de “guetos” negros e brancos não se sustentam, os negros circulam pela cidade e interagem com ela, mas há limites para suas ações, e, cabe a nós, historiadores, percebermos as formas improvisadas, as táticas e as estratégias articuladas por estes para vivenciarem nestas relações, e como vimos, a festa do dia 13 de maio, era uma destas formas.
A articulação entre os Clubes negros revela também a existência de uma identidade racial e de um posicionamento político, fato este confirmado em outra nota publicada na mesma edição do jornal:

Vindos de Itajubá, recebemos uma honrosa visita da diretoria do Club 13 de Maio composta dos distinctos senhores: Dr. João Miguel da Silva, João Tigório Pereira, João José de Abreu, José Camillo, Izaltino Prestes e Damião Beraldo. De Santa Rita do Sapucahy, o Sr. Rosalino Máximo e sua esposa Sra D. Maria Máximo. Muito Gratos (Jornal O 28 de Setembro, 1922, p. 2).

O jornal trazia ainda, em relação ao mês de maio, um conteúdo repleto de valores morais e religiosos, dando vivas a este e articulando-o à imagem de Maria. A coluna Recordações do mês de maio traz a seguinte nota:

Santo mez, este por sem dúvida de tantas caridades que une no mesmo pensamento, no mesmo coração, na communicação dos bens espirituaes, os fervorosos Christãos (...) Como é consolador e edificante ver aos pés da Mãe de Misericordia  - Mater Misericordiae, prostrados todos os que têm mágoas e afflições! Que confiança ella inspira! Quanto conforto inspira! Oh quanta alegria nos innunda a alma! (Jornal O 28 de Setembro, 1922, p. 1).

A comunidade negra pouso-alegrense, no mês de maio dedicava-se não somente às comemorações do dia 13, como também se dedicava às ações e reflexões materiais e espirituais religiosas.
O conteúdo do jornal também era constituído de poesias diversas de autoria dos dirigentes do jornal, notas de aniversários, de falecimento, da chegada e saída de pessoas da cidade, das festividades ocorridas na cidade, de agradecimentos e congratulações, além de poucas propagandas publicitárias. O que possivelmente contribuiu para o encerramento do jornal, pois como sabemos, as propagandas publicitárias constituem-se em um significativo orçamento para a manutenção de um meio impresso.
O encerramento da circulação do jornal ocorreu por dificuldades financeiras. Além do 28 de Setembro, outros jornais também tiveram vida curta na pequena esfera pública burguesa de Pouso Alegre, na qual o abrir e fechar dos jornais era uma constante. 
É importante salientar que mesmo tendo circulado por pouco tempo, e termos tido acesso a uma pequena parte restante dos exemplares do jornal O 28 de Setembro, este foi uma importante fonte e fio condutor que nos possibilitou uma releitura mesmo que parcialmente, das histórias, das memórias, da trajetória e das relações que este Clube construiu com a cidade. Nesta direção, as palavras de Heloísa de Faria Cruz nos contribuem, pois segundo ela: 
Com relação aos sentidos da difusão da imprensa (...), vale ressaltar que, embora a maioria dessas folhas e revistas não tenha adquirido uma forma estável e permanente, foi através delas que os novos conteúdos da vida e das disputas culturais da cidade penetraram mais fortemente o campo da cultura (CRUZ, 2000, p. 148).

O Clube ao criar o seu jornal, construiu uma via de comunicação com a sociedade. Através do jornal as pessoas tinham contato com os ideais e valores propagados por este, desta forma, inseria-se e se fazia presente nas relações sociais existentes na cidade. Heloísa de Faria Cruz fomenta esta discussão, ao explicar que:

Outros periódicos menos chics, por vezes mais singelos, outros mais críticos, referindo-se a bailes em associações recreativas (...) festivais, aos grupos de música e de teatro das fábricas e dos bairros, aos times de várzea, (...) mostrando a disseminação de novas formas de vivência e de pleitos sobre a cidade para além dos círculos das elites, articulam como personagens e leitores potenciais as camadas populares e da população (CRUZ, 2000, p. 143).

A autora afirma que além dos jornais produzidos pela elite, existiam outros jornais, ditos menos “chics”, feitos pela e para a classe pobre que expressavam em seus conteúdos os mais variados assuntos relacionados aos seus cotidianos. Muitos destes jornais traziam para a esfera da literatura jornalística, para os outros grupos sociais e para os espaços da cidade, as suas formas de viver, bem como suas ideologias e valores. Beatriz Sarlo assegura que:

(...) olhar politicamente é pôr as dissidências no centro do foco, o traço oposicionista da arte frente aos discursos (a ideologia, a moral, a estética) estabelecidos. Um olhar político aguça a percepção das diferenças como qualidades alternativas frente às linhas respaldadas pela tradição estética (SARLO, 2005, p. 60).

Neste sentido, percebemos que o Clube ao criar o seu jornal e ao evidenciar em suas páginas, suas práticas culturais, seus valores, costumes e memória, posicionava-se politicamente frente à sociedade. Sua ação buscava romper com a cultura hegemônica, resistindo como cultura subalterna e excluída. O veículo de ligação destas relações e discursos entre a sociedade pouso-alegrense e o Clube foi o jornal O 28 de Setembro.
Assim, este jornal representava a voz dos excluídos e esquecidos da sociedade de Pouso Alegre, que enxergavam neste impresso produzido por um clube de negros, de pobres e de operários, as suas ideologias e valores inscritos nas poucas folhas do jornal e inserindo-se nos espaços e no cotidiano da cidade.

Referências Bibliográficas

CRUZ, Heloísa de Faria; PEIXOTO, Maria do Rosário da Cunha. Na Oficina do Historiador: Conversas sobre História e Imprensa. In: Revista Projeto História, n°. 35. São Paulo: EDUC, 2007.

                                      . São Paulo em papel e tinta: periodismo e vida urbana- 1890-1915. São Paulo: Edusc/Fapesp, 2000.

GUARNIERI, Ivanor Luiz. ALVES, Fábio Lopes. Imagens do cotidiano e temporalidades: historiografia e imprensa. Porto Velho. Labirinto - Revista Eletrônica do Centro de Estudos do Imaginário. 2007. Disponível em: http://www.cei.unir.br/artigo104.html. Acesso em 28/05/2012.

PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2° ed. 1° reimpressão. São Paulo: Contexto, 2008.

SARLO, Beatriz. Paisagens Imaginárias. 1° ed. 1° reimpr. São Paulo: Edusp, 2005.


SOARES, Mariza de Carvalho. Devotos da cor. Identidade étnica, religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro, século XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

sábado, 4 de maio de 2013

10º Congresso de Iniciação Científica/Univás



Curso de História

Trabalhos aprovados no 10º Congresso de Iniciação Científica/Univás

Pôsteres

Ride palhaço e democráticos: representação dos diferentes sujeitos históricos no carnaval de Santa Rita do Sapucaí-MG (Paola Nery de Carli*; Andréa Silva Domingues) Universidade do Vale do Sapucaí

Cadeia Pública Estadual de Pouso Alegre/MG (1874 - 1931): as políticas higienistas e a reforma urbana no centro da cidade (Juliana Coutinho Martines*; Ana Eugênia Nunes de Andrade) Universidade do Vale do Sapucaí

Colônia Francisco Salles: o cotidiano dos imigrantes italianos em Pouso Alegre/MG (Gabriel Vitale Coutinho*; Ana Eugênia Nunes de Andrade) Universidade do Vale do Sapucaí

Cidade e poder: os (re) significados políticos da estação ferroviária de Pouso Alegre/MG (Daniel Aparecido da Costa*; Ana Eugênia Nunes de Andrade) Universidade do Vale do Sapucaí.

Comunicações orais

Práticas econômicas atreladas à produção de morango no município de Bom Repouso (MG) /Artur Thales José Brandão; Alexandre Carvalho de Andrade

Crescimento populacional, expansão urbana e relações regionais: o caso de Cachoeira De Minas (MG) /Miller Augusto Costa Araújo; Alexandre Carvalho de Andrade

A prática do skate na cidade de Pouso Alegre (MG): interações socioespaciais/Alexandre Silva Mendes; Alexandre Carvalho de Andrade

Análise dos processos históricos de ocupação na região Sul do município de Pouso Alegre-MG/Diego Garcia de Carvalho*; Alexandre Carvalho de Andrade

Cultura, Memória e Identidade: a construção do processo identitário dos nordestinos na cidade de Pouso Alegre – MG/Bárbara Cristine Casallechi Fonseca Simões*; Dra. Andrea Silva Domingues

A Lei N.º 10639/03 nos Livros Didáticos de História no Ensino Público Estadual da cidade de Pouso Alegre (MG) /Bruna Fátima de Brito*; Dra. Andrea Silva Domingues

O Arraiá do Zé Bagunça em Bueno Brandão – MG/João Marcos Alexandre; Elizabete Maria Espíndola

A Instalação do Décimo Regimento de Artilharia Montada em Pouso Alegre no ano de 1918/Thiago De Carvalho Soares; Elizabete Maria Espíndola

O Clube 28 de Setembro Em Pouso Alegre: sociabilidade e resistência da cultura afrodescendente/Jonatas Roque Ribeiro; Elizabete Maria Espíndola

Propaganda e representação social: a imagem do negro da propaganda comercial brasileira/Mariana Romão Da Silva; José Roberto Gonçalves

Vitrine do progresso: conflitos políticos no Mercado Municipal de Pouso Alegre (1970-2004) /Fernando Henrique do Vale; Ana Eugênia Nunes de Andrade

Os Jogos Eletrônicos como meio didático-metodológico auxiliar no ensino de História/Cássio Rafael Martins Santos; Juliano Hiroshi Ikeda Ishimura

Confira a programação do evento


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Aquecendo os tamborins

Alunos do primeiro ano preparando a decoração da Semana de História












segunda-feira, 15 de abril de 2013